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“Ser refugiado é como ter um rótulo na testa o tempo todo”, diz afegão

Kazem Ahmadi, de 27 anos, fugiu do Talibã e, até chegar à Grécia, onde vive atualmente, enfrentou montanhas, rios e até a prisão. Conheça sua história

por Laura Moraes, via Revista Galileu

Uma das realidades mais alarmantes das últimas décadas é o número de pessoas deslocadas por guerras, violência, perseguições e abusos de direitos humanos no mundo. O ano de 2021 terminou com  89,3 milhões de indivíduos vivendo nessas condições, de acordo com o relatório Tendências Globais, publicação estatística anual da ACNUR, Agência da ONU para Refugiados. Esse dado representa um crescimento de 8% em relação ao ano anterior — e mais que o dobro verificado há 10 anos.

Entre essas vítimas está o afegão Kazem Ahmadi. Em 2011, com apenas 16 anos, ele fugiu de sua terra natal, onde trabalhava com a família em uma fazenda. O objetivo era escapar do controle do Talibã, grupo fundamentalista islâmico. A fuga deu certo, mas o rumo de sua história mudou totalmente.

Após sair do Afeganistão junto de uma tia e um primo, Ahmadi se instalou no Irã, onde viveu por quase sete anos. Naquela época, ele tinha o sonho de estudar química e ser farmacêutico. Apesar de ter começado a graduação, não conseguiu terminá-la. O motivo? Xenofobia. “Os iranianos não gostam dos afegãos”, afirma o jovem, hoje com 27 anos. “A partir do momento em que descobrem que você é afegão, a comunicação torna-se um problema. Por isso não consegui estudar na universidade por muito tempo.”

Essa e outras situações provocadas por diferenças culturais e religiosas entre os países levaram o rapaz a decidir se mudar para a Europa. Mas esse caminho tampouco seria fácil. A começar pelo fato de que a única maneira de cruzar as fronteiras do Irã era com contrabandistas e traficantes. Mesmo assim, lá foi ele.

Rota de fuga

Após percorrer 200 quilômetros de carro até a fronteira com a Turquia, Kazem e sua família encararam a travessia para o país vizinho. O trajeto envolvia mais de 20 horas escalando e descendo montanhas, além de cruzar um rio cuja água batia no peito, carregando pertences acima da cabeça.

A partir de Izmir, cidade na costa da Turquia, eles embarcaram em um pesqueiro com mais 74 pessoas rumo à Itália. Essa empreitada se estendeu por angustiantes nove dias, que envolveram quebra do GPS de navegação, dias à deriva, tempestades e embates entre os tripulantes. Até que o grupo conseguiu desembarcar na ilha de Zakynthos, na Grécia.

Ahmadi encarou tudo isso tendo ainda que cuidar da tia, que tem dificuldade de locomoção, e do primo, que sofria com asma na época. “O mais difícil talvez fosse que eu não precisava só me preocupar com a minha vida, mas com o bem-estar deles também. Achei que iríamos morrer”, recorda, em entrevista a GALILEU.SAIBA MAIS

Não estava nos planos ir para a Grécia. Segundo o afegão, a situação para refugiados por lá é precária. “A burocracia do Estado atrapalha tudo, e o governo não tem a capacidade de desempenhar o papel que deveria. Sem as organizações não governamentais as pessoas simplesmente passariam fome”, explica.

Kazem inclusive chegou a ficar três meses encarcerado em um centro de detenção, já que não tinha documentos e nem meios para formalizar o pedido de asilo. Foi com a ajuda da ONG Planeta de Todos, em parceria com a Holes in Borders, que ele conseguiu oficializar o processo de asilo no país e seguir em liberdade.

Hoje, Kazem tem 27 anos e mora na Grécia, onde cruzou caminhos com a ONG brasileira de acolhimento e capacitação de refugiados, Planeta de Todos (Foto: Divulgação/ Gotcha )

Hoje, Kazem tem 27 anos e mora na Grécia, onde cruzou caminhos com a ONG brasileira de acolhimento e capacitação de refugiados, Planeta de Todos (Foto: Divulgação/ Gotcha )

Depois de chegar a Atenas, o jovem afegão morou em prédios abandonados e ocupações, e até dormiu nas ruas da capital grega. Mas, por meio das ações promovidas pelas ONGs, ele conseguiu aprender inglês, receber capacitação para entrar no mercado de trabalho e reconstruir-se no novo país.

Hoje, ele trabalha como intérprete e palestrante na Diotima, uma organização grega especializada em questões de gênero e igualdade. A entidade oferece suporte legal e psicossocial a membros da comunidade LGBTQIA+ e a mulheres refugiadas em situação de abuso. 

Seus familiares, inclusive pais e irmã, moram atualmente na Alemanha, onde também conseguiram oficializar a situação de asilo. Como Ahmadi foi preso e obteve asilo na Grécia, ainda não teve a possibilidade de se juntar a eles.

Racismo e preconceito

Desde que saiu do Afeganistão, Kazem tem lidado quase diariamente com preconceitos. “É como ter um rótulo na testa. Em qualquer lugar que eu vá, serei tratado apenas como um refugiado, como uma pessoa não branca privilegiada. Não é fácil ter um dedo apontado na sua cara o tempo todo”, desabafa.

Mas ele encontrou maneiras de lidar com essas situações, e aprendeu que em qualquer lugar existem pessoas boas e ruins. “Viajei muito pela Grécia, e em minha experiência encontrei pessoas muito boas… e outras que queriam me agredir”, lembra.

Mas, afinal, como ajudar quem está passando por situações como a de Ahmadi? O conselho dele é não deixar de compartilhar essas histórias. Foi com esse objetivo, aliás, que ele visitou o Brasil em junho. A convite da Planeta de Todos, ele veio trocar experiências a partir de sua vivência como refugiado na Europa. “As pessoas ainda estão sofrendo, morrendo nos mares, nas florestas, em situações violentas. Não é porque não é novo que não está acontecendo”, alerta.

*Com edição e supervisão de Luiza Monteiro

Imagem: Kazem Ahmadi fotografado na Avenida Paulista durante sua visita à capital paulistana (Foto: Divulgação/ Gotcha )

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