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Pesadelo americano: agentes de imigração teriam cometido abusos físicos e sexuais

Relatório divulgado pela organização Human Rights Watch (HRW), com base em dados do próprio governo, expõe graves abusos contra imigrantes. Denúncias associam agentes de imigração a agressões físicas, abusos sexuais e tentativas de extorsão

por Rodrigo Craveiro, via Correio Braziliense

O nome do relatório de 26 páginas da Human Rights Watch (HRW) sugere o teor das 160 denúncias coletadas pelo próprio governo dos Estados Unidos sobre má conduta e abusos cometidos pelas autoridades norte-americanas contra os imigrantes presos após cruzarem a fronteira com o México: They treat you like you are worthless (Eles te tratam como se você não valesse nada). Segundo a organização não governamental, os casos, ocorridos entre 2016 e 2021, envolvem agentes da Patrulha Fronteiriça; da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP, pela sigla em inglês); e da Imigração e Fiscalização Alfandegária (ICE). O informe revela que agressões físicas graves, violações sexuais, intimidação, ataques racistas e extorsão teriam sido praticados com o conhecimento do governo, que não tomou providências.

Diretora associada do Programa Estados Unidos da HRW e autora do relatório, Clara Long (leia Duas perguntas para) contou ao Correio que, ante a subnotificação do número de imigrantes não documentados que tentam entrar nos EUA, “é justo dizer que os brasileiros são muito impactados pelos abusos sistemáticos na fronteira sul”. Dados inéditos da CBP obtidos pelo jornal The Washington Post mostraram que as autoridades norte-americanas detiveram mais de 1,7 milhão de imigrantes ao longo da fronteira com o México, durante o ano fiscal de 2021, encerrado em setembro. O número é recorde em toda a história de registros. As travessias ilegais começaram a aumentar no ano passado, mas dispararam nos meses que se seguiram à posse do presidente Joe Biden. Entre julho e agosto deste ano, mais de 200 mil estrangeiros foram presos.

Clara Long disse que ficou chocada com algumas das violações contra imigrantes de distintas nacionalidades catalogadas pelas autoridades norte-americanas. “Há casos realmente graves envolvendo agentes da patrulha fronteiriça. Um deles deu uma joelhada na parte inferior da pélvis de uma mulher. Ela teve hematomas, sentiu dores e, posteriormente, apresentou hemorragia”, afirmou. “Outro solicitante de asilo contou que o agente o golpeou tão intensamente que perdeu a consciência e sofreu edema cerebral.”

Outras violações chocantes incluem agressões sexuais. Segundo Long, um agente que vestia uniforme verde, idêntico ao da Patrulha Fronteiriça dos Estados Unidos, propôs a uma solicitante de asilo que fizesse sexo oral em troca de uma suposta libertação. Outro agente teria forçado uma garota a se desnudar e a tocou de modo inadequado. “Também vimos denúncias de grave negligência médica. Um solicitante de asilo foi mordido por um cão de agente e não recebeu socorro por um mês. Teve os testículos removidos, acometido por infecção. Também houve casos em que as pessoas somente recebiam alimentos se assinassem os documentos de deportação”, afirmou a autora do informe.

Recomendações

Ainda de acordo com Long, a HRW tem encorajado o governo de Joe Biden a adotar medidas urgentes para aprimorar a transparência e a responsabilização dos agentes pelos abusos cometidos. “Isso significa reconhecer publicamente o escopo do problema e solicitar a outras agências do governo federal para investigarem essas violações. Também precisamos do envolvimento do Congresso, de apuração e fiscalização externas. É necessária uma resposta humanitária na fronteira sul, em vez do foco de tratar os imigrantes como uma ameaça, o que os EUA têm feito até agora”, disse a ativista.

No fim do mês passado, fotos de imigrantes haitianos perseguidos por agentes montados a cavalos na região de Del Río (Texas) atraíram a condenação da Casa Branca e levaram à renúncia do diplomata Daniel Foote, enviado especial dos Estados Unidos ao Haiti. “É horrível o que você vê — cavalos quase atropelando as pessoas… Elas sendo amarradas. É ultrajante. Prometo a vocês que essas pessoas (agentes) vão pagar”, declarou Biden, em 24 de setembro. Na mesma época, Alejandro Mayorkas, chefe do Departamento de Segurança Interna (DHS) dos EUA, anunciou uma rápida investigação disciplinar sobre as imagens “extremamente preocupantes” e prometeu uma supervisão interna da conduta dos agentes da Patrulha Fronteiriça em Del Río. No entanto, segundo a HRW, nenhum resultado da apuração foi divulgado, apesar da promessa de Mayorkas em fazê-lo “em dias, não semanas”.

» Duas perguntas para…

Clara Long, diretora associada do Programa Estados Unidos da Human Rights Watch e autora do relatório da Human Rights Watch (HRW)

Quais foram as mais preocupantes conclusões de seu relatório? A descoberta mais preocupante que tivemos neste relatório foi que o próprio governo dos Estados Unidos sabe sobre abusos chocantes ocorridos na fronteira e perpetrados pelas próprias autoridades. O relatório não cobre conteúdo que não tenhamos escutado de outros meios, como abusos físicos e sexuais, intimidação, tratamento racista, violações do processo legal. Ele mostra que as autoridades norte-americanos têm reportado essa conduta internamente há muitos anos, sem que houvesse indicação de que tais denúncias seriam investigadas e acompanhadas. A Human Rights Watch perguntou ao governo dos EUA sobre casos específicos há várias semanas. Não recebemos nenhuma resposta.

Em que circunstâncias ocorreram esses abusos? Eles ocorreram tanto no momento da prisão quanto dentro dos centros de detenção ao longo da fronteira. As autoridades que coletaram essas denúncias foram aquelas responsáveis por monitorarem os imigrantes durante o processo de pedido de asilo. Em algumas ocasiões, essas pessoas falaram sobre o tratamento recebido ao tentarem entrar nos EUA. Conversei com alguns dos agentes da patrulha fronteiriça e eles me confirmaram que as denúncias são reais.

Imagem: Policial da Patrulha Fronteiriça revista hondurenha, enquanto a filha de 2 anos chora, após tentarem entrar nos EUA, em 2018: foto viralizou – (crédito: John Moore/AFP)

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