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Jogadores brasileiros na Ucrânia vivem apreensão com invasão russa: “Dia cinzento”

De atletas de clubes de regiões separatistas até aqueles que jogam na capital Kiev, escalada das tensões entre Ucrânia e Rússia cria preocupação entre comunidade brasileira

Por Felipe Schmidt, Jorge Natan e Marcio Iannacca, via Globo Esporte

Guilherme Smith viu sua vida mudar de forma inesperada. Com apenas 18 anos, morando sozinho na Ucrânia, o atacante do Zorya Luhansk tenta manter uma rotina de normalidade enquanto, ao seu redor, as notícias eram de guerra iminente. Com a escalada das tensões entre Rússia e Ucrânia, incluindo o anúncio de uma invasão russa, o garoto convive com a tensão e a incerteza, pois o Campeonato Ucraniano acabou suspenso oficialmente.

Originalmente marcado para recomeçar nesta sexta-feira, o campeonato teve sua suspensão oficializada nesta quinta-feira, pela organização do torneio.https://5a9d3103d9169b4218c5612d6257e4a5.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

– Devido à imposição da lei marcial na Ucrânia, o Campeonato Ucraniano está suspenso – anunciou a Premier League Ucraniana (UPL), em curto comunicado.

Até então, o Zorya de Guilherme vinha mantendo a rotina de treinos.

– A gente está bem focado na volta do campeonato. Ainda não estourou nada, não chegou nada para gente, mas é claro que vivemos com medo, com preocupação. Percebo as pessoas mais tensas. Antes elas viviam mais tranquilas – contou Guilherme ao ge.

Guilherme Smith, atacante brasileiro de 18 anos do Zorya — Foto: Reprodução

Guilherme Smith, atacante brasileiro de 18 anos do Zorya — Foto: Reprodução

Mudança de cidade

O clube de Guilherme é um símbolo da tensão entre Rússia e Ucrânia. O Zorya fica em Luhansk, uma das regiões separatistas que tiveram a independência reconhecida pelo governo russo. Esta parte da Ucrânia tem forte influência do país vizinho, e o Zorya não é diferente: é comum ver referências ao clube com o nome Zarya, seu correspondente na língua russa, que significa “alvorecer”.

Contratado em agosto pelo Zorya, Guilherme nunca esteve em Luhansk. Isso porque, desde o conflito em 2014 que resultou na anexação da Crimeia, outra região ucraniana, à Rússia, o clube precisou sair de Luhansk. Os treinos e os jogos acontecem na cidade de Zaporizhzhia, distante cerca de 400 km da fronteira.

– Na cidade direto passa carro-forte, exército na rua. Isso traz um pouco de medo para nós, que somos de fora.

– Mas parece um dia cinzento. Você sai na rua e vê que o povo está estranho. Fica um clima tenso na cidade. Como estamos longe da divisa, acho que é mais difícil ter um conflito. Mas o exército fica passando de um lado para o outro, e a gente fica com medo – disse o meia Cristian, companheiro de Guilherme no Zorya.

Brasileiros que jogam na Ucrânia relatam clima de medo em meio à crise política

Além de Guilherme e Cristian, o Zorya tem em seu elenco também o lateral Juninho. Segundo Guilherme, eles conversam todos os dias em busca de notícias e também mantém contatos com compatriotas de outros times. A dificuldade de comunicação com os ucranianos atrapalha – por enquanto, eles não foram informados de nenhuma alteração e seguem normalmente a rotina de treinos.

Cristian, porém, já mostra preocupação com a escalada dos conflitos e começa a pensar em deixar o país. A questão, porém, é o contrato a cumprir com o Zorya.

– Eu, no caso, sairia daqui. Mas o problema é que precisamos cumprir o contrato. Não podemos largar. Como os ucranianos estão acostumados com isso, a gente não está. A gente pode ficar que não vai dar nada. A gente fica com medo porque não é acostumado. A gente vive sem saber o que fazer. Se der uma guerra, a gente tem que dar um jeito de sair do país. A gente deixa as coisas arrumadas caso a gente precise sair numa emergência – completou Cristian.

Shakhtar veta entrevistas, e jogadores pedem ajuda

A situação do Zorya é parecida com a dos jogadores do Shakhtar Donetsk. Famoso pela predileção por brasileiros, o clube tem atualmente 13 atletas do país no elenco e os vetou de dar qualquer entrevista sobre o conflito com a Rússia.

No Shakhtar, a ordem ainda era de rotina normal. O elenco voltou no domingo de uma intertemporada na Turquia e vinha treinando normalmente, de olho na retomada do Campeonato Ucraniano. Após a invasão russa, porém, os brasileiros do time se refugiaram em um hotel e tentam deixar a Ucrânia.

Originalmente com sede em Donetsk, o Shakhtar, a exemplo do Zorya, joga longe de suas raízes desde 2014. O estádio do clube, a Donbass Arena, batizada com o nome da região separatista, chegou a ser bombardeado durante o conflito da Crimeia.

Destroços na Donbass Arena, estádio do Shakhtar — Foto: Shakhtar

Destroços na Donbass Arena, estádio do Shakhtar — Foto: Shakhtar

Preocupação também em Kiev

Desde então, o Shakhtar treina e joga em Kiev, capital ucraniana. É lá que estão os jogadores desde o retorno ao país.

Em Kiev também está o Dínamo, maior clube da cidade. Mesmo com a distância em relação à fronteira, o clima de tensão permanece. O atacante Vitinho chegou em agosto do ano passado, vendido pelo Athletico. Porém, desde o início do conflito, ficou pouco tempo no país, pois o time viajou para uma intertemporada na Espanha, em janeiro.

– Passei pouco tempo no país durante as tensões. Retornei de férias do Brasil, fiquei apenas dois dias na Ucrânia e fomos para intertemporada. Pude observar mais policiais na rua e menos pessoas circulando, mas não mudou minha rotina pois fiquei pouco no país – disse Vitinho ao ge.

Vitinho, durante a intertemporada pelo Dínamo de Kiev — Foto: Reprodução

Vitinho, durante a intertemporada pelo Dínamo de Kiev — Foto: Reprodução

Ainda assim, o brasileiro foi precavido. Quando o Dínamo viajou para a Espanha para a intertemporada, o brasileiro levou sua esposa e seu filho para a Turquia. Só nesta semana, quando retornou à capital, ele reencontrou a família.

– Sem dúvidas que a gente fica com um pouco de medo. São notícias que não estava acostumado a presenciar. Porém, eu tento focar o máximo no futebol. A adaptação já é difícil, o frio também, a língua, então seria mais uma coisa pra focar além do futebol, que é o real motivo de estar aqui. Espero, claro, que isso acabe o quanto antes, rezo muito por todos para que a gente consiga passar por isso o mais rápido possível e continuo focado em fazer o que mais amo, que é jogar futebol, numa equipe enorme aqui da Ucrânia – finalizou Vitinho.

Entenda o conflito entre Ucrânia e Rússia

A tensão no Leste Europeu aumentou nas últimas semanas, com a movimentação de tropas russas na fronteira com a Ucrânia. Na última segunda-feira, o presidente Vladimir Putin gerou ainda mais apreensão em todo o planeta ao reconhecer a independência de repúblicas separatistas ucranianas e enviar tropas às regiões de Donetsk e Luhansk – o que foi visto como uma invasão do país vizinho por especialistas.

A Ucrânia, por sua vez, não reconhece a independência das regiões separatistas e solicita que a Rússia siga negociando para retirada de suas tropas. Enquanto isso, a ONU vem criticando as decisões do governo russo – e outras potências, como os Estados Unidos, ameaçam a Rússia de sanções econômicas e políticas, indicando que existe “o risco de um grande conflito”.

Na madrugada desta quinta-feira, Putin anunciou uma operação militar na Ucrânia, sob o pretexto de “desmilitarizar” o país vizinho.

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