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Descendentes resgatam a memória de imigrantes sírios e libaneses no Brasil

Projeto de digitalização de documentos faz parte de esforço para conservar a memória da comunidade

por Diogo Bercito, via Folha de São Paulo

Quando Afifi morreu em 2003, aos 96 anos, sua neta Heloisa Abreu Dib virou a guardiã de seu álbum de fotos. É um tomo desbotado de couro, montado pelo avô Zaki. Um tesouro. É um dos únicos registros da história da família, que veio da Síria para o Brasil no início do século 20. Não há quase nenhum outro documento, nada que ajude Dib a entender as aventuras de seus antepassados. O silêncio documental vivido por Dib é comum ao restante da comunidade sírio-libanesa no Brasil, a despeito de seu peso político, econômico e cultural na formação do país. Muito da história desses imigrantes —que celebram todo dia 25 de março sua chegada— desapareceu com o tempo.

Para sanar esse problema, Dib tem se dedicado a reunir e preservar o que ainda pode ser salvo desse episódio central da história brasileira. Ela coordena um projeto de digitalização de documentos da memória da imigração sírio-libanesa no país, entre os quais fotografias, cartas, certidões, diários e jornais. A iniciativa é uma parceria entre a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira e a USEK (Universidade do Espírito Santo de Kaslik, na sigla em francês), no Líbano. A ponte entre o Brasil e o Líbano é feita pelo professor brasileiro-libanês Roberto Khatlab. O projeto é parte de um esforço mais amplo de conservar a memória dos sírios e libaneses em outros países da América Latina. Nas celebrações deste ano, previstas para o sábado (26) no Museu da Imigração do Estado de São Paulo, Dib deve reforçar o pedido pela colaboração da comunidade.

Os árabes começaram a chegar ao Brasil nos anos 1870. Vinham, em sua maioria, do que mais tarde se tornaram a Síria e o Líbano —à época, territórios sob domínio do Império Otomano. Cerca de 140 mil deles chegaram aqui. A comunidade diz que há hoje milhões de descendentes. Sírios e libaneses inovaram no comércio popular, estudaram em escolas de elite e alguns deles chegaram ao topo da política nacional. Michel Temer, Fernando Haddad e Guilherme Boulos são alguns dos exemplos dos tantos descendentes que fizeram história, nestas décadas. Discriminados no Brasil, porém, muitos fizeram questão de que seus filhos não aprendessem o árabe nem se apegassem a esse passado. “A primeira geração nascida no Brasil não foi ensinada a valorizar essa história”, afirma Dib. “Quando os primeiros imigrantes começaram a morrer, a tendência foi os descendentes jogarem tudo fora, inclusive se desfazendo das bibliotecas. Raramente você encontra uma família que tenha um passaporte, uma certidão de nascimento.”

Os documentos descartados incluíam jornais e revistas publicados em árabe no Brasil no início do século 20. Como o Império Otomano censurava a imprensa, muito da produção intelectual em árabe acontecia na diáspora, em lugares como São Paulo, Buenos Aires e Nova York. Alguns dos clássicos desse período eram o jornal A Esfinge, de Chucri Curi, e A Vinha, de Salwa Salama Atlas. A perda de arquivos não aconteceu apenas nos lares. As instituições da comunidade também foram se desfazendo de seus documentos e de suas bibliotecas. Livros foram parar em sebos —mas, por estarem em árabe, nunca foram catalogados. “Daí temos a perda, o roubo, a má conservação.” O trabalho de Dib começou com sua própria família. Com o álbum da avó Afifi em mãos, ela se sentou com o pai e os tios e começou a perguntar quem era quem, em cada foto. “Fui refazendo a nossa história pelas fotografias, roupas, cenários, eventos sociais”, conta.

Heloisa Dib tem liderado esforços para recuperar e digitalizar documentos de famílias sírio-libanesas – Karime Xavier/Folhapress

Nos últimos anos, Dib foi se preparando sozinha, por meio de cursos de história oral, de restauro e de digitalização. Depois de localizar os membros dispersos da família, a pesquisadora deu uma festa. Amigos de longa data acabaram descobrindo, na ocasião, que eram primos. “Foi muito emocionante”, ela diz. No seu trabalho com a Câmara e a USEK, Dib contou com o apoio da estagiária Mirna Nasser. Elas digitalizaram 100 mil imagens desde junho de 2018. São documentos de instituições como o Clube Homs, fundado em 1920, e o Lar Sírio Pró-Infância, de 1923. Também foram consultados a Biblioteca Mário de Andrade e o Arquivo Público do Estado de São Paulo. Neste último, estão algumas edições dos jornais árabes mais antigos do Brasil, como o al-Assmahi e o al-Fayha, do fim do século 19. “Uma das primeiras coisas que fizemos foi ir atrás dessas publicações”, diz Silvia Antibas, diretora cultural da Câmara. “Estávamos desesperados, tentando recuperar revistas e jornais. Depois, as pessoas começaram a se interessar e ligaram para a gente, contando o que tinham.” O trabalho, segundo Antibas, “não tem fim”. Por enquanto, foram recolhidos e digitalizados apenas documentos da cidade de São Paulo, onde os imigrantes se concentraram. Mas falta o interior do estado —e o restante do país, onde também estão presentes. “É uma sensação de uma história que está se perdendo.” Ainda existem poucos estudos sobre a história dos árabes no Brasil. A maior parte se baseia nos mesmos poucos livros, como “Patrícios: Sírios e Libaneses em São Paulo”, publicado em 1997 pelo sociólogo Oswaldo Truzzi.

Antibas espera que, com os projetos de conservação, pesquisadores possam contar novas histórias, explorando outras facetas dessa variada comunidade. “Como é que ficamos, se não tivermos documentos para irmos puxando o fio da nossa história?” Dib se pergunta. “O que vamos contar para os nossos filhos?”

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