top of page

Coordenador de Museu do Holocausto no Brasil diz que fala de Monark é perigosa

por Fernanda Canofre, via Folha de São Paulo

A fala de um dos apresentadores do podcast Flow, Bruno Aiub, o Monark, defendendo o direito de existência de um partido nazista, ocupou a discussão nas redes, levou ao desligamento de patrocinadores, cancelamento de entrevistados e ao anúncio do afastamento do próprio Aiub dos microfones, nesta terça-feira (8).

Assim que o tema viralizou, emails e rede sociais do Museu do Holocausto em Curitiba, primeiro museu sobre o tema no Brasil, se encheram de cobranças por ações em cima do caso.

O museu usou o Twitter para contrapor às falas do apresentador e o convidou para conhecer o local e aprender sobre a história de extermínio ligada ao nazismo, que assassinou milhões de pessoas.

“Outras instituições se dedicam a isso [processar, tomar medidas], mas o papel do museu é elucidar e convidar o rapaz para fazer uma visita”, diz o coordenador-geral Carlos Reiss.

Os quatro avós dele são sobreviventes do Holocausto. Reiss está finalizando um livro sobre a história da avó paterna, Sala Borowiak, que esteve no campo de concentração de Auschwitz, na Polônia.

O coordenador do museu (que tem acesso gratuito e agendamento pelo site oficial) conversou com a Folha sobre a fala de Aiub, antisemitismo e a memória do Holocausto:

Como o senhor avalia as declarações feitas no podcast? Temos visto nos últimos anos dois fenômenos interessantes. O primeiro é o processo de como o nazismo e o Holocausto, de temas que antes ficavam restritos ao rodapé de livros didáticos nas escolas, saíram e agora frequentam as conversas coloquiais, até a mesa do bar. É um fenômeno interessante, até mesmo aliado à noção de que, 80 anos depois de tudo que aconteceu, a gente tem a convicção de que nunca foi tão importante falar sobre Holocausto e as lições que construímos a partir dele.

Essa declaração específica está dentro de um contexto sociopolítico, que temos visto a construção disso no Brasil a cinco ou seis anos. Diante do número de intervenções e do conteúdo das intervenções que temos visto de governantes, jornalistas, influenciadores, nos últimos anos, não é algo que nos espanta, como deveria espantar ou que espantaria como no início da década passada, quando o museu foi criado.

No podcast, a discussão falava sobre o tema como questão de liberdade de opinião. Por que não é? É aquela famosa questão, a liberdade individual se limita quando se choca com a liberdade do outro. O que ele fala de ser antijudeu, do direito de ser antijudeu, não é só um conjunto de ideias que vem fortalecido de liberdade individual, e sim uma questão que é contra a existência de um grupo de pessoas.

A liberdade individual não é absoluta, é relativa. No caso específico do nazismo, a gente fala sobre mais do que liberdade, a gente fala do direito à vida.

Ele fala que as pessoas têm o direito de serem idiotas. O nazismo vai muito além de pessoas exercendo o direito de serem idiotas, o nazismo está ligado a uma noção, uma ideia de supremacia e extermínio, consentido dentro daquele contexto, que pode crescer e perpetrar o Holocausto, o genocídio de milhões de pessoas. É um dos motivos de um Museu do Holocausto em qualquer lugar do planeta, não apenas para reverenciar as vítimas, mas também para servir como alerta permanente.

Foi uma fala muito mais do que infeliz, foi uma fala bastante perigosa, porque deturpa, mais do que o nazismo, a noção de liberdade individual.

Tem um termo cunhado, ‘Lei de Godwin’, sobre a banalização de analogias com o nazismo. O senhor acha que talvez tenha se perdido a dimensão sobre isso? A questão é que o ato de comparar passou a ser visto como banalizar, como se o Holocausto estivesse em um pedestal mítico no rol dos eventos históricos, não pudesse ser invocado, só cerimonializado. A memória dos eventos históricos, das tragédias, do Holocausto está aí para ser usada, sim, senão ela perde o sentido de existir. A memória precisa ser manuseada, a gente precisa criar analogias, mas de forma responsável, senão cai numa armadilha de vulgarizar tudo isso.

Acontece que tanto o nazismo, quanto o Holocausto são temas que se popularizaram no Brasil nos últimos anos e muito do que se é colocado em termos públicos é feito de forma equivocada. Tanto que o que a gente chama de Lei de Godwin tem acontecido cada vez com mais frequência.

Acho que, mais do que um movimento de ataque desenfreado, do que jogar pedras no rapaz que falou esses absurdos, a gente precisa utilizar esse caso como instrumento para que, a partir dessa visibilidade negativa, se crie oportunidade para esclarecer e evidenciar que o nazismo foi muito mais do que uma ideia de pessoas que queriam direito de serem idiotas e que a liberdade individual é relativa, a partir do momento que se choca com o outro.

Nos trechos da entrevista que viralizaram, se fala sobre direito de se reconhecer um partido nazista. Como o senhor avalia? Eu não vejo, a partir da fala dele, explicitamente, uma apologia do nazismo. Acho que existe uma deturpação do que é a liberdade. Acho que é uma tentativa de se trazer para a sociedade brasileira um conceito de liberdade plena, que existe nos EUA, mas que também não é tão plena assim.

Acho que mais do que cancelar o rapaz ou o trabalho que ele faz, que eu não conheço profundamente, acho que a gente precisa buscar transformar esse episódio lamentável em algo relevante para esse processo educativo, entender o quão perigosas são algumas ações, falas e atitudes.

Reportagens recentes apontam crescimento de grupos neonazistas no Brasil, como vocês veem isso? Vocês notam um crescimento do anti-semitismo? A gente precisa entender que o anti-semitismo é uma forma de ódio, de preconceito e que não pode ser visto como algo desvinculado das outras formas de racismo. Racismo, intolerância religiosa, LGBTfobia, tudo isso caminha na mesma esfera sociológica. Não é uma questão relativa ao discurso em si, mas ao contexto que leva a uma aceitação maior ou menor desse discurso de ódio. Por que tem épocas em que dizer o que esse rapaz disse a sociedade reagiria de outra forma de como reage hoje?

Claro que nos preocupa, mas a questão é maior e mais complexa do que só o crescimento do anti-semitismo. Os números que envolvem racismo, intolerância religiosa, principalmente em relação as religiões de matriz africana, de violência contra a mulher, ciganos, crescem na mesma proporção. Estamos num momento em que precisamos, o quanto antes, começar a declinar nesse ciclo e voltar a contextos recentes, do consenso de uma educação antifascista, da importância dos direitos humanos como algo universal. A gente precisa voltar aquele patamar.

Veja peças do acervo do Museu Judaico em SP

Veja peças do acervo do Museu Judaico em SP. Foto: Folha de SP

Quando e por que o Museu do Holocausto foi criado? Ele foi inaugurado em 2011, em uma iniciativa particular e comunitária. É o primeiro museu sobre o Holocausto no Brasil e a primeira instituição que uniu eixos de educação, memória e pesquisa com projeto museológico permanente. As pessoas perguntam por que o museu no Brasil. Tem a ver com nosso próprio envolvimento nessas histórias, não só o envolvimento do país, dos pracinhas da FEB que foram à Europa lutar contra o nazismo, mas dos sobreviventes que reconstruíram suas vidas aqui.

Não são histórias alheias à identidade brasileira, estamos falando de aproximadamente 25 mil pessoas que chegaram aqui, e hoje estão seus filhos, netos, bisnetos, brasileiros, que é meu caso. A grande questão desse tipo de memória é trazermos para os dias de hoje, usarmos essas lições para combater questões que ainda nos atingem.

O Museu publicou nas redes um convite para que Monark visite a instituição e conheça a história, certo? Não sei se ele irá aceitar o convite, mas se aceitar iremos recebê-lo com todo o prazer para acompanhar uma visita, sem qualquer contrapartida. O convite faz parte de uma série de estratégias que o museu tem utilizado para capitalizar esses eventos tristes para algo que seja realmente construtivo para a nossa sociedade. Mais do que gerar notas de repúdio dizendo que é inadmissível, porque realmente é.

Carlos Reiss, 40, nascido em Belo Horizonte, é coordenador-geral do Museu do Holocausto em Curitiba. Graduado em Comunicação Social pela UFMG, com estudos em Relações Internacionais e Ciencias Políticas pela Universidade Hebraica de Jerusalém e Universidade Tuiuti (PR). Escreveu “Luz sobre o Caos: educação e memória do Holocausto” (2018).

Imagem: Carlos Reiss, coordenador-geral do Museu do Holocausto em Curitiba – Giuliano Gomes/Divulgação Museu do Holocausto

1 visualização0 comentário

Comments


bottom of page