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Como vivem refugiados no Brasil em tempos de quarentena

País tem 43 mil pessoas em situação de refúgio, mas pedidos caíram pela metade na pandemia

por Débora Freitas, Diego Viñas, Júlia Carvalho e Rocio Paik, da CNN em São Paulo

Dia 20 de junho é lembrado como Dia Mundial do Refugiado. No Brasil, existem atualmente 43 mil pessoas em situação de refúgio. E para quem precisa, deixar o seu país nunca é uma escolha. Foi o caso do palestino Omar Suleib, que saiu de sua terra natal por conta das constantes guerras. E a situação política na Venezuela fez Nazareth Sojo escolher o Brasil como nova casa. O desemprego e os constantes homicídios no norte de seu país foram o que trouxe o nigeriano Shakiru Olawale para o Brasil.

Na Síria, Zaher Jamal não suportou a falta de tranquilidade e democracia. São situações extremas que colocam essas pessoas numa condição em comum.De acordo com o relatório divulgado recentemente pela Agência da ONU para Refugiados, a Acnur, o deslocamento forçado já atinge 1% da população mundial, quase 80 milhões de pessoas. Sírios e venezuelanos são as principais nacionalidades afetadas. E é no Brasil, que boa parte deles encontra acolhida. Dados do Comitê Nacional para os Refugiados, ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, cerca de 90% dos refugiados são da Venezuela.

Como a família da Yilmary de Perdomo, que chegou ao Brasil em 2016 e decidiu trabalhar com a gastronomia de seu país de origem para ganhar a vida. Tudo estava indo bem, mas aí veio a pandemia do novo coronavírus. “Mudou muita coisa para todo mundo, mas para nós eu acredito que mudou ainda mais. A gente não tem pessoas perto da família, tem a questão de não poder pagar um aluguel e não poder sair e ir morar com a mãe”, conta Yilmary. Ela se preocupa com a recuperação dos negócios. “A gente perdeu muitas negociações que já tínhamos planificado”, disse ela, que mora com o marido, três filhos e os sogros. Sete pessoas em uma apartamento pequeno na região do ABC paulista.

Pedidos caíram pela metade

Só em 2019, o Brasil recebeu aproximadamente 80 mil pedidos de refúgio. No primeiro semestre de 2020, as solicitações caíram praticamente pela metade, principalmente por causa da pandemia do novo coronavírus.

Com o fechamento de boa parte das fronteiras, ficou mais difícil para os refugiados se deslocarem. Os organismos internacionais afirmam que trabalham para garantir que as solicitações sejam atendidas. Para o porta-voz da ACNUR Brasil, Luiz Fernando Godinho, existe uma paralisia de movimentação mundial. “A própria movimentação dentro dos países também está reduzida. No caso da fronteira da Venezuela que é o fluxo mais intenso no Brasil, não tem pessoas do outro lado da fronteira”, disse.

Godinho acredita em um impacto geral, tanto nos países de origem quanto de destino. “Nossos números já mostram uma queda concreta. É uma questão global, é um tipo de impacto no sistema de refúgio. A gente entende que é um momento excepcional e espera que seja retomado movimento e processamento dos casos”.

Cozinheiro, motorista e professor

A CNN conversou com outros quatro refugiados que vivem no Brasil. Eles também relatam as dificuldades causadas pelo distanciamento social imposto pela doença.

O palestino Omar Suleibi é cozinheiro e, na pandemia, viu seu negócio quase falir. “A primeira coisa que mudou foi o trabalho, eu estou trabalhando com comida árabe e não tenho restaurante fixo. Trabalho em feiras, festas particulares, fazendo entrega. Todos os eventos foram cancelados, festas também. Os pedidos diminuíram bastante, as pessoas estão com medo”.

Mestre em gestão e políticas culturais, a venezuelana Nazareth Sojo disse que o primeiro mês foi um verdadeiro desespero. “Eu comia muito, dormia demais. Já no segundo mês, eu comecei uma terapia online daí eu consegui levar tudo isso no isolamento”.

A internet ruim virou um obstáculo para o professor de inglês Shakiru Olawale Kareem, que dava suas aulas normalmente até a quarentena. “Hoje em dia estou tendo problemas com a internet, só tem trabalho online. Tenho três pacotes diferentes de internet que estou usando na minha casa”, brinca, mas o problema é sério.

Zaher Jamal Bakri, sírio, é mais um motorista de aplicativo. “Entra passageiro, sai passageiro e você fica mais preocupado em pegar coronavírus. Eu tenho sete pessoas em casa”, desabafa.

Apesar das dificuldades e da vontade de voltar para casa, a maioria dos refugiados tem um sentimento em comum em relação ao Brasil: gratidão e acolhimento. Eles aprendem e também ensinam. “A força de nós refugiados, todo dia reinventamos e todos os dias temos a sensibilidade e de escutar outras pessoas.Eu acredito que é hora de pensar nisso. e como refugiada quero que as pessoas entendam. Vamos ajudar, vamos pensar que todo mundo agora é igual, ninguém é diferente”, diz a venezuelana Yilmara.

Imagem: ONU, REPRODUÇÃO

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