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Brasileiros relembram medo nas “salinhas” de imigração; saiba como evitar

por Marcel Vincenti, extraído da Nossa Viagem

Desembarcar em aeroportos de lugares como Estados Unidos e países da Europa dá frio na barriga de muitos brasileiros. Ao sair do avião, afinal, o turista terá que enfrentar, necessariamente, a tensa fila da imigração, onde deve mostrar documentos e responder perguntas sobre sua vida pessoal e sobre a viagem que está realizando.

Uma documentação incompleta ou respostas que não agradem o oficial imigratório podem fazer com que o viajante seja enviado para a famosa salinha do aeroporto, na qual são realizados interrogatórios que decidem se a pessoa pode (ou não) ingressar no país.

Mas como é a experiência de ser mandado para a salinha? E como é a abordagem dos oficiais do aeroporto neste misterioso e temido espaço dos terminais de desembarque?

Para saber isso, Nossa conversou com quatro viajantes brasileiros que já enfrentaram a salinha em viagens internacionais. Veja o que eles contaram.

Seis horas na salinha em Portugal

Eduardo Hardt decolou, sozinho e feliz, de Guarulhos rumo a Portugal, onde iria passar férias. Mas a chegada ao aeroporto que serve Lisboa esteve longe de ser suave.

Eduardo Hardt - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal

Eduardo HardtImagem: Arquivo pessoal

“Organizei minha viagem de última hora”, conta ele. “Por conta disso, acabei não levando alguns documentos que podem ser importantes para entrar em Portugal. Ia me hospedar na casa de amigos brasileiros que vivem no país, mas esqueci de providenciar documentos comprovando que eu iria ficar com eles, como uma carta convite”.

Eduardo diz que deu “azar de ter que apresentar seus documentos em um guichê onde estava uma oficial de imigração muito mal-humorada. Ela desconfiou de mim e me tratou mal. Achou, talvez, que eu fosse ficar ilegal em Portugal. E, rapidamente, chamou um segurança para me levar para a salinha”.

“Fui deixado em uma sala com bancos totalmente desconfortáveis, onde não pegava wi-fi e cheia de outros viajantes brasileiros. Havia desde jovens sozinhos até famílias inteiras, com pai, mãe e crianças. Acho que muitos deles eram pessoas humildes que estavam tentando ir ganhar a vida em Portugal, mas talvez sem permissão legal”.

Segundo Eduardo, havia também diversos oficiais de imigração circulando pela sala, mas eles não se comunicavam com os viajantes retidos ali.

Fiquei quase seis horas na salinha. E nenhum oficial me dava informações sobre o que iria acontecer. Ali ao lado, havia outra sala, onde eles estavam interrogando as pessoas. E vi cenas muito tristes. Eles separavam as famílias, para entrevistá-las individualmente e ver se caíam em contradição. Muita gente estava chorando”.

Após receber uma refeição, o brasileiro foi chamado para a entrevista. Ciente de que não devia nada, estava tranquilo.

“Respondi com calma todas as perguntas do oficial. Ele perguntou sobre minha vida no Brasil e pediu para ver minha conta do Instagram. Mostrei meus vínculos empregatícios e, quando falei que trabalhava com fotografia, o oficial me testou. Falou que queria comprar uma câmera e perguntou qual máquina eu indicaria para ele. Foram 20 minutos de conversa e, ao fim, ele autorizou minha entrada em Portugal”.

A história, porém, não acabou aí: após sair da salinha e caminhar por diversos minutos rumo à saída do aeroporto, Eduardo percebeu que havia esquecido uma de suas mochilas na salinha.

“Voltei correndo e, quando os oficiais me viram, tiraram sarro. Eles começaram a brincar, dizendo ‘o brasileiro quer ficar aqui com a gente'”.

“Você confia nos venezuelanos?”

Daniel Ribeiro em Miami - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal

Daniel Ribeiro em MiamiImagem: Arquivo pessoal

Daniel Ribeiro morou a trabalho na Venezuela e, neste período, resolveu fazer uma viagem curta aos Estados Unidos.

“Comprei uma passagem aérea entre Caracas e Fort Lauderdale, na Flórida. Minha ideia era ir até Miami para passar um fim de semana na cidade”, relata ele.

Ao chegar aos Estados Unidos, entretanto, o brasileiro iria enfrentar a salinha pela primeira vez na vida.

“Acho que eu era o único brasileiro do voo. E, depois de mostrar meu passaporte e ganhar o carimbo de entrada no guichê da imigração, um oficial veio atrás de mim”.

O homem começou a seguir Daniel até a esteira das bagagens e, no trajeto, foi lançando uma série de questões. O que ele fazia nos Estados Unidos? Quanto tempo iria ficar? Quanto dinheiro havia trazido?

“Ele, então, quis olhar minha mala e me levou para a salinha. Um segundo oficial entrou e fechou a porta. Eles ficaram repetindo as mesmas perguntas, sem parar. Às vezes, faziam as questões em inglês. Às vezes, em espanhol e até em português. Queriam ver se eu caía em contradição”.

Não demorou para que os oficiais abrissem a bagagem do brasileiro e começassem a revistá-la minuciosamente, em busca de drogas.

“Minha bagagem era pequena, pois eu só ia passar um fim de semana na Flórida. E eles me perguntaram onde o resto das minhas coisas havia ficado. Eu disse que tinha deixado meus pertences no lugar onde morava em Caracas. E eles me indagaram: ‘mas você confia nos venezuelanos, para deixar suas coisas lá?”.

A repetição das perguntas continuava — e Daniel precisou manter a calma para não se estressar. “Eu me controlava para não responder com impaciência, mas eles notavam isso e perguntavam de novo. Perdi a noção de quanto tempo permaneci dentro daquela sala. E tive receio de ser deportado. Mesmo não devendo nada, você fica com medo do cara simplesmente invocar com você e proibir seu ingresso”.

O brasileiro acabou sendo liberado para entrar nos Estados Unidos, mas, antes, passou por um instante tenso.

Em certo momento, o oficial perguntou, pela enésima vez, quanto dinheiro eu tinha. E eu acabei levando minha mão em direção à cintura, onde estava minha doleira com meu dinheiro, para mostrar meus dólares para ele. Nesta hora, o oficial reagiu colocando a mão na própria cintura, como se fosse pegar uma arma. Percebi que eu tinha que ter cuidado com meus gestos”.

Ao sair da salinha, Daniel ouviu, dos oficiais, um “bem-vindo à América”.

Radiografia no aeroporto

Cristina Muniz - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal

Cristina MunizImagem: Arquivo pessoal

Cristina Muniz voou para a Inglaterra com o objetivo de fazer um curso de inglês e trabalhar como babá em uma casa de família em Manchester.

E ela chegou ao Reino Unido com todos os documentos em ordem: levou a matrícula da escola de inglês, uma carta convite da família que iria empregá-la e dinheiro vivo para comprovar que tinha condições de se manter por lá.

Mas, mesmo assim, passou por apuros após o pouso no aeroporto de Heathrow, que serve Londres.

“Meu inglês ainda não era bom naquele momento. E, na hora de mostrar o passaporte, o oficial fez várias perguntas, questionando onde eu ia ficar e quanto eu tinha de dinheiro. Eu estava cansada após a longa viagem desde o Brasil e acho que não respondi como eles esperavam”, conta. “Logo, me mandaram para a salinha. E aí fiquei muito tensa”.

Segundo Cristina, um dos oficiais contou todo o seu dinheiro. E, com educação, continuava fazendo as mesmas perguntas, para ver se ela caía em contradição.

E aí veio o momento mais delicado: a brasileira foi obrigada a fazer uma radiografia da área do seu estômago, sob a desconfiança de que estivesse trazendo drogas dentro do corpo para a Inglaterra.

Foi uma situação horrível. Você acaba se sentindo como um criminoso. E, por um momento, achei que não entraria no país. Eu tinha largado meu emprego no Brasil para esta viagem. Tive medo de ser barrada e ficar no prejuízo”.

Cristina ficou retida pela imigração por mais de três horas. Mas, depois de todo este processo, seu ingresso no Reino Unido foi autorizado.

“Após chegar a Manchester, passei algumas noites sem dormir direito. Era a mistura do jetlag com a tensão que vivi no aeroporto”.

“Você é terrorista?”

Wagner Malagrine - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal

Wagner MalagrineImagem: Arquivo pessoal

O fotógrafo e produtor de conteúdo Wagner Malagrine viveu uma tensa experiência em uma salinha de aeroporto durante uma viagem de retorno ao Brasil.

“Eu estava no aeroporto alemão de Frankfurt, prestes a pegar um voo de volta para São Paulo. E, no terminal de embarque, havia um cartaz com fotos de terroristas procurados pela polícia local. Um dos brasileiros que estava comigo achou que eu era parecido com um daqueles homens. Começamos a brincar com aquilo e tirei uma foto ao lado dos retratos dos terroristas”, conta.

A equipe de segurança do aeroporto viu a cena e abordou Wagner, levando ele para uma salinha.

Eles começaram a perguntar se eu havia tido contato com explosivos. E o pior de tudo é que eu estava com um colete de fotógrafo parecido com aqueles usados por homens-bomba. Eles me deixaram só de cueca para me revistar. E também revistaram toda a minha bagagem”.

Wagner respondeu todas as questões dos oficiais, tentando convencê-los de que era apenas um viajante do Brasil. “Achei que fosse perder meu voo e perguntei quanto tempo ficaria ali. Eles disseram: ‘o tempo que for necessário'”.

Após muitos questionamentos, o brasileiro foi finalmente liberado e conseguiu pegar seu avião. “Nunca faça brincadeiras assim em um aeroporto”, aconselha ele.

Dicas para um ingresso tranquilo em países estrangeiros

Para saber quais atitudes o viajante brasileiro deve adotar para ter um ingresso tranquilo em países estrangeiros, Nossa entrevistou Diana Quintas, sócia da Fragomen no Brasil, empresa multinacional especialista em imigração. Veja as dicas que ela deu:

1) Cheque a documentação

Tenha toda sua documentação de viagem e comprovantes de hospedagem e transporte à mãoImagem: Getty Images/iStockphoto

Ter um check-list detalhado de quais documentos você precisa preencher e levar na viagem é fundamental. Alguns países, por exemplo, pedem o preenchimento de formulários online antes da viagem.

Além disso, atualmente, muitas nações exigem comprovantes de vacinação contra a covid-19 para estrangeiros. Alguns países aceitam somente algumas marcas de vacinas. Então, é preciso checar isso com antecedência.

E vale lembrar que seguro de saúde internacional é obrigatório para entrada em vários destinos. Depois da pandemia, novos países implementaram essa exigência.

2) Vistos

As regras de vistos podem mudar de uma hora para outra. Os países podem passar a exigir ou revogar a exigência de vistos a qualquer momento. Antes da viagem, é preciso saber quais são as informações mais atualizadas sobre o visto do país que você quer visitar.

Além disso, os Estados Unidos pedem para que o viajante não compre a passagem antes de conseguir o visto americano, pois este pode ser negado. E ter um visto condizente com o propósito da viagem é muito importante.

Há diversos casos de pessoas que viajam para cumprir compromissos de trabalho com visto de turismo. No Reino Unido, por exemplo, esta prática é ilegal.

3) Hospedagem

Um documento que pode fazer toda a diferença na imigração é o comprovante de hospedagem no país que será visitado. Os agentes podem pedir documentos que comprovem que o turista tenha onde se hospedar por toda a duração da viagem.

Reservas de hotéis ou casas alugadas são suficientes desde que contemplem todo o período de estadia no país. Em caso de hospedagem na casa de amigos, é essencial ter uma carta convite. Há modelos gratuitos de carta convite na internet.

4) Passagem de volta

Um dos motivos mais frequentes para a deportação é a tentativa de entrar em um país sem uma passagem de volta. Os agentes da imigração têm o poder de realizar uma deportação por qualquer motivo coerente com a legislação interna. A entrada de um cidadão internacional sem passagem de volta pode dar a entender uma tentativa de imigração ilegal.Paciência na checagem de documentos: processo pode ser tenso e demoradoImagem: Getty Images/iStockphoto

5) Homônimos

Um motivo que costuma trazer bastante dor de cabeça para os viajantes são os homônimos. Nomes iguais são sempre motivo de atenção. Se seu nome for muito comum, você pode ser chamado para a salinha e só será liberado quando concluírem que você é você mesmo. Tenha paciência.

6) Valorize o impresso

Tenha todos os documentos impressos ou salvos no seu telefone em PDF ou imagem. Não dependa da internet para acessar comprovantes.

7) Calma acima de tudo

A imigração tende a ser um processo tranquilo para quem tem toda a documentação em dia. Mantenha a calma e a paciência, pois não adianta ter pressa. Querer furar filas ou ficar questionando o tempo de espera são atitudes que podem levantar suspeitas. Em casos de homônimos, por exemplo, a checagem pode durar algumas horas. Esperar é a única possibilidade.Manter a calma na hora de passar pelo controle de fronteiras é fundamentalImagem: Getty Images

8) Saber responder

Tenha toda sua documentação em mãos, mas responda apenas o que for perguntado. Comprovantes de hospedagem, passagens de volta e outros documentos devem ser fornecidos só quando forem solicitados.

9) Saber enfrentar a entrevista

Familiares ou grupos de amigos podem ser entrevistados juntos ou separadamente. Caso chamem algum companheiro de viagem para a salinha e você tenha que esperar do lado de fora, aguarde com tranquilidade. Novamente, é importante lembrar que, estando dentro da lei, não há o que temer. Porém, testes de paciência são comuns quando há alguma suspeita.

Imagem: Sala de viajantes com agentes da polícia no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Créditos: Gamma-Rapho via Getty Images

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