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Bicentenário das instruções para a imigração alemã

Documento de José Bonifácio ao major Schaeffer estabeleceu as bases para a vinda de imigrantes

por Moacir Fritzen, via Diário de Canoas

Um momento impactante para a imigração alemã ocorreu há praticamente dois séculos. O dia 21 de agosto de 1822 entrou para a história não somente do Brasil, mas também de outras nações. Nesta data, José Bonifácio de Andrada e Silva assinou as instruções endereçadas ao major alemão Georg Anton von Schaeffer para que ele fosse à Europa com a finalidade de conseguir adesão à causa brasileira de conquistar a independência e também fazer ajustes e trazer colonos e soldados. A missão era secreta. O regulamento trazia recomendações sobre como proceder, quem procurar e o perfil dos imigrantes que interessavam ao Brasil.

A relação com Portugal estava abalada e a independência aconteceria poucas semanas depois.

“O Império precisava, urgentemente, de soldados confiáveis, pois as tropas portuguesas poderiam fazer contrarrevolução. Por isso, Schaeffer recebeu as instruções de trazer soldados escondidos no meio de casais. A exportação de soldados estava proibida pelos acordos de Viena após a queda de Napoleão”, destaca o historiador, pesquisador e escritor Martin Norberto Dreher.

E havia até um modelo para os imigrantes. “Ajustará uma Colônia rural-militar que tenha pouco mais ou menos a mesma organisação dos Cossacos do Don e do Ural; a qual se comporá de duas classes. 1ª de atiradores que debaixo do disfarce de Colonos serão transportados ao Brazil, onde deverão servir como Militares pelo espaço de seis annos; 2ª de individuos puramente Colonos, aos quaes se concederão terras para seu estabelecimento, devendo porém servirem de militares em tempo de guerra, á maneira de Cossacos, ou Milicia Armada, vencendo no tempo de serviço o mesmo soldo que tem as Milicias Portuguezas quando se acham em campanha”, consta em trecho das instruções, mantida a ortografia da época.

“Os cossacos eram populações na atual Ucrânia. Em tempos de paz eram agricultores, mas treinavam para a guerra. Em tempos de guerra eram convocados para a luta. A Colônia Alemã de São Leopoldo surge com essas características. Logo os imigrantes e depois seus filhos seriam destinados à Guerra da Cisplatina, depois à Farroupilha, à Guerra do Paraguai e à Revolução Federalista. Iriam ocupar o solo, plantar para o mercado interno e servir de soldados. Em 1824 a população total do Rio Grande do Sul era de pouco mais de 60 mil habitantes e não dava conta de produzir alimentos e soldados para as guerras com os territórios vizinhos”, explica Dreher.

O documento prestes a completar dois séculos tem uma importância histórica relevante para a futura Colônia Alemã de São Leopoldo. “As instruções mostram quais as intenções originais do futuro Império ao trazer imigrantes: solo (povoamento), alimento e soldados. O subproduto foi a introdução de técnicos para os quais não havia mais espaço na Europa: sapateiros, seleiros, carpinteiros, moleiros, funileiros, ferreiros… Profissionais artesãos. Mas teve que fazer concessões, trazendo, por exemplo, protestantes até então proibidos de ingressar no País”, afirma Dreher.

O plano teve alguns percalços. As ideias revolucionárias de d. Pedro I não eram unanimidade na Europa, apesar da origem austríaca da sua esposa d. Leopoldina.

“Von Schaeffer vai se desincumbir do que as instruções mandam fazer: vai a Viena. É expulso por Metternich. Vai a Munique. Em Hamburgo é aceito e consegue que os mendigos que se encontram na cadeia sejam mandados para o Brasil. De modo semelhante visita o Grão-Duque de Mecklenburg-Schwerin, com o qual consegue que os sem-terra e artesãos desempregados recolhidos às casas de correção sejam enviados ao Brasil. No Palatinado consegue convencer pessoas à beira do pauperismo (os Hunsrücker) a partir para o Brasil. Os contratos que estabelece seguem estritamente a legislação portuguesa e brasileira”, enfatiza.

Dreher esclarece que Schaeffer posteriormente ganhou fama de mentiroso, mas que ele recebeu ordens e as cumpriu. “Ele não era um mentiroso. As autoridades brasileiras não cumprirão o que ele fora instruído a prometer. Em decorrência ele passou à história como bode expiatório. Claro que parte do que foi prometido foi cumprido. Fomos mandados para a guerra, produzimos alimentos. Os colonos ganharam terra, mesmo com medições que demoraram. Tivemos um diretor da Colônia Alemã de São Leopoldo, João Daniel Hillebrand, que conseguiu botar as coisas nos eixos.”

Uma nação em ebulição

O Brasil fervilhava e vivia um ambiente político de muita instabilidade. Os adeptos da independência ganhavam força. E a imigração alemã para terras brasileiras já estava nos planos. “A Colônia Alemã de São Leopoldo foi planejada antes do 7 de setembro e preparatória para a nossa independência. Desde o início ela estava ligada à história do País independente”, comenta Dreher.

A pressão crescia. Era uma questão de tempo para que os laços com Portugal fossem rompidos e a então colônia assumisse as próprias rédeas como uma nação independente. A imigração ainda não estava em prática, mas era orquestrada.

Leopoldina era favorável à imigração e à independência

Em 13 de agosto de 1822, a princesa Leopoldina foi nomeada como regente interina do Brasil por meio de um decreto assinado por d. Pedro I, que precisou se ausentar da Corte para apaziguar os ânimos de alguns grupos em São Paulo. A futura imperatriz teve papel decisivo tanto na independência como para a imigração alemã.

O clima era tenso. Em 2 de setembro de 1822, Leopoldina presidiu o Conselho de Estado. “Pedro, o Brasil está como um vulcão. Até no paço há revolucionários. Até oficiais das tropas são revolucionários. As Cortes Portuguesas ordenam vossa partida imediata, ameaçam-vos e humilham-vos. O Conselho de Estado aconselha-vos para ficar”, redigiu no primeiro parágrafo da carta que seu marido depois iria ler na margem do Riacho do Ipiranga.

Leopoldina era claramente favorável às duas causas: independência e imigração, pois temia os excessos liberais e as revoluções populares, bem como desejava manter a monarquia.

“Leopoldina era filha do imperador da Áustria, sogro de d. Pedro I. A independência significava desobediência em relação à Europa. Há a necessidade do ponto de vista dela de apaziguar o pai e as cortes europeias. Ela é a visionária que verifica que o Brasil não tem futuro se não se tornar independente, seguindo o que os demais países da América estavam fazendo. Mas ela também queria assegurar a continuidade da Coroa, não pensava em República”, detalha Dreher.

Era um período conturbado e cheio de decisões que tiveram reflexos.

Schaeffer era um militar próximo a ela, um ajudante de ordens. Por isso, segundo Dreher, o alemão foi escolhido para a missão secreta.

Queda do principal aliado e morte da imperatriz

Schaeffer enfrentaria obstáculos ainda maiores a partir da saída de seu principal aliado, o ministro José Bonifácio de Andrada e Silva, do governo imperial, em 16 de julho de 1823. Durante os debates da Assembleia Constituinte, ele e seus irmãos Martim Francisco Ribeiro de Andrada e Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva romperam com d. Pedro I. Como consequência, o imperador demitiu-o do posto de ministro. José Bonifácio passou a ser oposicionista.

Outro duro golpe foi a morte da imperatriz d. Leopoldina em 11 de novembro de 1826. Além de muito amada pelo povo brasileiro, a austríaca era forte defensora do processo imigratório.

“Já não havia direção nem organização em meio à conturbada política brasileira do primeiro reinado”, destaca Solange Hamester Johann.

Esses fatos interferiram muito fortemente para frear a vinda das famílias de colonos para o Brasil.

Barão com serviços prestados

Georg Anton von Schaeffer foi reconhecido em vida. Na Rússia, recebeu o título de barão por serviços prestados, que lhe rendeu o medalhão.

Por interesses talvez de opositores, teve a reputação difamada e chegou a ser descrito como alcoólatra. A má fama também pode ter sido espalhada por soldados descontentes por promessas não cumpridas por autoridades no Brasil.

Em contrapartida, o marquês de Barbacena admitiu que poucos homens poderiam ter enviado cerca de 8 mil alemães em tão pouco tempo e a custos tão módicos.

Influência para definir a futura capital

Segundo o livro 1824, escrito pelo historiador gaúcho Rodrigo Trespach, o alemão Georg Anton von Schaeffer teve influência até para a definição da futura capital. Nas correspondências trocadas entre ele e José Bonifácio, são citadas inclusive as coordenadas: entre 15 e 16 graus latitude meridional e 47 ou 48 graus de latitude ocidental de Greenwich. “São as coordenadas de Brasília, descritas sete décadas antes do astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls realizar a primeira expedição demarcatória da futura capital”, consta em trecho do livro.

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