top of page

“A fome é o limite dos limites”, diz Drauzio Varella sobre avanço da Covid-19 no Brasil

Oncologista Drauzio Varella (Foto: Marco Ankosqui/Ed. Globo)

por Mariana Grilli, extraído do Globo Rural

O país que mais acumula morte por milhão de habitantes nas Américas por Covid-19 é o mesmo que tem o maior programa de imunizações do mundo. Este é o Brasil. “O que mais dói é que temos tudo o que é necessário para fazer funcionar a saúde pública, mas há má distribuição.”

A afirmação é do médico Drauzio Varella, oncologista especialista em saúde pública e um profundo conhecedor do Brasil rural. Em entrevista à Revista Globo Rural, ele afirma que as zonas rurais estão mais vulneráveis, sem um plano de vacinação contra a Covid-19.

A crise sanitária também afeta a economia, e a fome volta a chamar a atenção do país. “Isso é uma emergência que estamos vivendo. Fome não dá para aceitar, é o limite dos limites”, alerta.

Globo Rural: Doutor, o Brasil olha para as zonas rurais sob a perspectiva do atendimento à saúde?

Drauzio Varella: O número de médicos existentes no Brasil é comparável ao de muitos países; mais desenvolvidos que o nosso. Da mesma forma, o corpo de enfermagem. O problema é a distribuição; a concentração, primeiro, no Sudeste, depois no Sul. Tentamos com médicos cubanos, que prestaram um bom serviço, principalmente no atendimento primário. Eu rodo muito o Brasil e onde eles atuavam a população se sentia bem atendida. Antes era pior ainda, os médicos passavam a cada uma semana, a cada 15 dias. E não basta médico para ter uma boa atenção à saúde, mas sem médico não dá para ter. O primeiro problema, então, é esse da distribuição. O segundo é a falta de interesse para políticas públicas de saúde. O Brasil até hoje ainda não tem porque o cargo de ministro da Saúde atende a finalidades políticas. Você não atende o ministro por ser um sanitarista, uma pessoa treinada em políticas públicas. Não, você escolhe de acordo com o interesse momentâneo daqueles governantes, com maioria no Senado e na Câmara.

GR: Qual é a infraestrutura mínima aceitável para cuidar de uma população mais afastada?

Varella: Sabe o que mais dói na saúde pública brasileira? É quando você olha o sistema. Nós temos tudo o que é necessário para fazer funcionar de uma forma muito razoável. Nós temos um dos melhores programas de saúde pública do mundo, que é o Estratégia Saúde da Família, que surgiu não consegue ter tomografia computadorizada, neurologista de plantão, e 60% têm menos de 50 leitos. Não merecem nem ser chamados de hospital. Você tem cinco cidades num raio de 100 quilômetros, e cinco pequenos hospitais que não resolvem o problema. Você deveria ter um grande hospital regional que atendesse a todas essas cidades e depois pequenos hospitais em cada uma das pequenas cidades, onde não se justifica ter investimento num grande hospital com um número pequeno de habitantes. E depois você tem hospitais em grandes cidades, que vão fazer cateterismo, transplante, medicina terciária. A falta de funcionamento desse esquema é o que dá a má fama para o SUS (Sistema Único de Saúde). Quando as pessoas passam mal, não conseguem ser atendidas ou demoram dias para serem consultadas, e elas correm para o pronto-socorro. Temos uma cultura de pronto-socorro no Brasil, porque lá a pessoa vai ser atendida, de alguma forma vai ser resolvido o problema dela. A fama do SUS vem daí, quando nenhum país com mais de 100 milhões de habitantes tem um sistema parecido com o SUS, e o Brasil tem 210 milhões de habitantes. Agora, nessa pandemia, estamos vendo a importância do SUS.

GR: Então podemos dizer que a vacinação da Covid-19 está longe da realidade das zonas rurais?

Varella: Pode estar distante em função da logística. Uma comunidade ribeirinha no Alto Rio Negro, não é fácil chegar lá, mas chega. Nós temos o maior programa de imunizações do mundo. Temos 38 mil salas de vacinação espalhadas pelo país. Descontadas essas pequenas vilas, comunidades, que estão muito deslocadas dos centros urbanos, ninguém precisa viajar para tomar vacina. O sistema é de uma capilaridade impressionante. A logística não é fácil, mas já criamos. O problema é que, pela primeira vez na história do programa, nós começamos uma campanha de vacinação sem ter vacina. Quando você não tem um programa centralizado no ministério, como sempre foi, a gente fica nessa bateção de cabeça. Fica essa confusão toda armada no país, mas isso é resultado da destruição do Programa Nacional de Imunizações, da interferência de gente incompetente, sem a noção de imunizar uma população do tamanho da população brasileira.

GR: Dentro desse contexto, as zonas rurais ficam mais vulneráveis?

Varella: Claro que ficam mais vulneráveis, por causa da própria estrutura de saúde, que atende menos às regiões rurais, especialmente às mais distantes. É lógico que você também está falando do norte de Mato Grosso, dos grandes plantadores de soja, mas eles mesmos se organizam e dão um jeito. Isso não é o grande Brasil, são pontos específicos do país. O “brasilzão” mesmo, que vai lá para os interiores, as pequenas comunidades… São as que mais sofrem. Essa epidemia começou nas grandes cidades, nos aeroportos internacionais. Isso é assim desde a peste, na Idade Média. Começou com quem viajou, e aí ela se espalhou e os interiores foram atingidos depois. Agora foi diferente. Nessa segunda onda, começou nos país inteiro, nas capitais e no interior ao mesmo tempo. Você vê um Estado como São Paulo, que entrou em colapso, várias cidades do interior entraram em colapso.

GR: As áreas afastadas do país contribuem para a subnotificação da Covid-19?

Varella: Quando eu digo que, no dia de hoje (13 de abril), o Brasil tem 355 mil mortes por Covid-19, é um número confiável. Pode haver alguma subnotificação de alguém que morreu em casa, que o quadro não ficou bem definido, mas o corpo está ali, precisa ser enterrado. Então, é uma forma de contar. Esse número de infecções que a gente vê todos os dias, eu acho que não tem valor nenhum. Esse número não merece confiança, o número de mortes, sim.

O oncologista Drauzio Varella vestindo máscara protetora contra a covid-19 (Foto: Marco Ankosqui/Ed. Globo)

O oncologista Drauzio Varella vestindo máscara protetora contra a covid-19 (Foto: Marco Ankosqui/Ed. Globo)

GR: Não bastasse a Covid-19, vemos a fome aumentar no Brasil. A insegurança alimentar aumenta as chances de contaminação pelo vírus?

Varella: A gente não sabe responder essa pergunta ainda, porque ainda não há esses estudos. A fome que altera o sistema imunológico não é a fome aguda, de você passar uma semana mal alimentado. É a fome crônica, quando esse processo vaite desnutrindo e você vai enfraquecendo. Eu ando muito pelo país, e há 50 anos a fome era um problema brasileiro.Isso acabou no Brasil. Há cinco anos, eu não digo que havia fome, mas pessoas mal alimentadas, que comiam menos do que as necessidades. Essas pessoas formavam bolsões em regiões distantes, mas a fome nas grandes cidades a gente não tinha. Só que as populações vivem numa situação de vulnerabilidade, que quer dizer “Tá dando pra segurar, mas se tiver qualquer abalo vamos passar necessidade”. É o que está acontecendo agora. As pessoas dizem que todo mundo tem de sair para trabalhar, senão a economia para. Entretanto, não é o isolamento que faz parar a economia, é o vírus. Há pessoas que não têm nenhum tipo de poupança, que dependem de sair e ganhar o dinheiro daquele dia, passar no supermercado e garantir comida por mais um dia. De repente, acabam os empregos, porque o comércio não funciona mais, os pequenos serviços, não tem um número grande de pessoas na rua, e começa a não ter o suficiente para a alimentação. Isso é uma emergência que nós estamos vivendo! E os governos e a sociedade têm de se mobilizar urgentemente, porque não podemos voltar à situação dos tempos em que havia fome no país. Fome não dá para aceitar, é o limite dos limites.

GR: Também temos assistido a uma descrença na ciência. O país, ao mesmo tempo que acredita na semente geneticamente modificada e na vacina para a pecuária, está reticente em relação à vacina contra a Covid-19. Por quê?

Varella: Parece um contrassenso, mas não é. Quando o produtor olha uma semente e vê que vai dar um lucro maior, ele adota imediatamente. Ele depende desse movimento para se desenvolver, se ficar preso ao passado, é colocado para fora do mercado. A Embrapa criou a agricultura tropical, conseguiu modernizar a lavoura brasileira. Eu vi a Embrapa nascer, os primeiros avanços. A Embrapa tinhade ganhar o Nobel da Paz. Os produtores se apropriaram dessa tecnologia,investirame agora o Brasil é esse grande produtor. Infelizmente, na área da saúde, não houve esse esclarecimento, esse movimento que os empresários captaram e souberam entender rapidamente.

GR: Como os grandes empresários do agronegócio podem contribuir para evitar o avanço da Covid-19 e da fome?

Varella: Muitos desses homens, ou os pais deles, chegaram a esses locais sem nada, e hoje muitos têm milhares de hectares plantados ou cabeças de gado. O Brasil não será uma potência industrial ou tecnológica a curto prazo, mas potência agrícola nós já somos. Os egípcios tinham escravos, gregos e romanos também. Aqui, até pouco tempo atrás, também existia, mas isso acabou, salvo alguns exemplos pontuais. O mesmo tem de acontecer com a desigualdade social. Esses grandes atores do agronegócio têm de estar atentos para a diminuição da desigualdade social, seja apoiando para aumentar o nível educacional, ajudando no acesso à saúde, ou oferecendo trabalho digno. Temos de ter essa consciência coletiva e esse compromisso de acabar com a desigualdade social no Brasil.

0 visualização0 comentário

Comentários


bottom of page